– Mãe, por que eu não tenho pai?
– Seu pai… faleceu pouco depois de você nascer, filho.
– Ah, ta.
– Olha filho, este aqui é o seu padastro! Pode chamar ele de Titio se quiser! E esta aqui é a filha do primeiro casamento dele.
– Nossa, ele é muito legal! Gosto muito do Titio! E dela também!
– Olha filho, agora você vai poder chamar o Titio de pai! E a filha dele é agora sua irmã mais velha! Sua primeira irmã!
– Que legal! To adorando ter um pai agora e minha primeira irmã!
– Então filho… Sua irmã decidiu que vai se mudar e vai morar com a mãe dela, lá em outro estado agora…
– Puxa, que pena…
– Filho… A sua irmã…
– Que tem?
– Parece que ela sofreu um AVC, eu e seu pai estamos indo agora ver ela, que está internada.
– Ta. Mandem notícias dela.
– Filho… Segundo os médicos, mesmo que ela sobreviva, ficaria em estado vegetativo…
– Entendi.
– Filho… Ela faleceu.
Eu… Nunca soube direito como lidar com a Morte. Até hoje, é uma verdadeira incógnita. Na época que recebi a notícia sobre minha irmã, não soube como reagir. Me silenciei durante muito tempo. Qualquer reação que viria a ter guardei cá dentro, qualquer esboço, possibilidade de externar… Foram completamente silenciados. Só anos depois, mas muito tempo depois mesmo, é que realmente botei tudo pra fora, no meio de uma conversa que nem lembro mais o que era, desandei a chorar. Chorei, mas chorei muito. Compulsivamente, colocando pra fora tudo o que ficou dentro, tudo o que havia sido silenciando, tudo isso ganhava o mundo agora. Botei pra fora até não aguentar mais. Meu corpo reagiu dessa maneira, não entendo o por quê. A Morte causa um efeito muito curioso na gente.
Recentemente, perdi um outro ente querido. Fui no velório do meu tio. Nunca fui num velório antes. Nunca estive diante de um corpo antes. Estava completamente diferente. Aquela imagem me afetou muito. Percebi então que a Morte nos coloca em perspectiva. Acho que nunca antes me em perspectiva tal como me vi agora. Automaticamente começo a rever tudo, e percebo que tudo são escolhas. Tudo o que fazemos são escolhas nossas. Tudo o que não fazemos também são escolhas. Quando escolhemos fazer alguma coisa, não estamos fazendo milhares de outras. Escolher fazer uma coisa é abrir mão sim de outras. Começo a rever todas as escolhas que fiz. Começo a rever qual foi a última vez que o vi. Começo a rever todas as vezes que poderia ter feito uma visita surpresa. Começo a rever todas as vezes que poderia ter ligado e não liguei. Todas as vezes que pude ter mais contato. Todas as coisas que poderia ter feito diferente, mas não fiz. Todas as coisas que poderia ter feito no futuro e simplesmente não vou mais poder fazer. Escolhas, foram sempre escolhas, e nem preciso ficar me remoendo nelas, pois elas simplesmente vem. Ficar falando sobre isso agora é muito fácil. Ficar relembrando, apontando todos os caminhos, falar sobre isso é muito fácil quando você não tem que encarar a coisa de frente. Quando estamos diante do fato, é sempre muito mais fácil de dissertar, mas quando estamos de frente…
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